Gestão Financeira
Faturo bem, mas não sobra dinheiro: onde ele está indo?
A empresa vende, o extrato mostra entrada todo dia e, no fim do mês, o saldo não conta a história. Os cinco lugares para onde o dinheiro vai antes de você ver: e o controle que mostra cada um.
Por Marlon Paulo, sócio-proprietário e contador, CRC-SP 1SP358890/O-8Publicado em

Resposta direta
"Faturo bem, mas não sobra dinheiro" é o que acontece quando a empresa mede o que entra e não mede o que sai antes de o dono ver. Entre a venda e o saldo existem cinco saídas: imposto, taxa de cartão e antecipação, custo do que foi vendido, folha com encargos, e retiradas com financiamentos. Dois controles mostram cada uma: o fluxo de caixa projetado e a DRE gerencial.
É a frase mais repetida na primeira conversa com um empresário que procura gestão financeira: "eu faturo bem, mas não vejo a cor do dinheiro". Ela não é exagero. É a descrição exata de uma empresa que mede o que entra e não mede o que sai antes de o dono ver.
Faturamento é entrada, lucro é o que sobra
Entre a venda e o dinheiro que fica, existem pelo menos cinco desvios. Quase nenhum deles aparece no extrato com nome claro. O saldo do banco soma tudo num número só, e é por isso que ele engana.
As cinco saídas abaixo aparecem em quase toda empresa que chega ao escritório com essa queixa. A ordem importa: as primeiras são as que menos gente enxerga.
Saída 1: o imposto que chega depois da venda
No Simples Nacional a alíquota não é fixa. A LC 123/2006, art. 18, §1º-A, define a alíquota efetiva a partir da receita bruta acumulada dos doze meses anteriores: quanto mais a empresa faturou no último ano, maior a fatia de cada venda que vai para o DAS. Uma empresa que dobrou de tamanho mudou de faixa sem perceber, e passa a pagar mais por real vendido.
A guia chega no mês seguinte, quando o dinheiro da venda já foi usado. É a saída que mais surpreende, porque o dono olhou o saldo antes de a guia existir.
Saída 2: taxa de cartão e antecipação
Cada venda no cartão perde uma porcentagem para a operadora, e a antecipação de recebíveis cobra mais uma. Em comércio com muita venda parcelada, isso pesa sem que ninguém tenha lançado uma despesa chamada "taxa".
O extrato piora a percepção, porque mostra só o valor já descontado. Quem anota a receita líquida nunca vê o custo do cartão como custo, e por isso nunca negocia a taxa.
Saída 3: o custo do que foi vendido
Mercadoria, insumo, frete, embalagem. Se o estoque não é controlado, o custo da mercadoria vendida é estimativa, e a margem que o dono calcula na cabeça está errada desde a origem.
Perda, avaria e desperdício entram aqui também, e só aparecem quando o estoque físico é comparado com as notas de compra e de venda. Sem essa conferência, o dinheiro que deveria sobrar repõe o que sumiu.
Saída 4: folha e encargos
O salário é visível. Os encargos, férias, 13º e rescisões são diluídos e aparecem em meses específicos, derrubando o caixa justamente quando o dono achava que ia sobrar.
A saída certa é provisionar: separar todo mês uma fração para o 13º e as férias, como se já tivessem sido pagos. Empresa que consome o faturamento inteiro no mês da entrada chega em dezembro no limite.
Saída 5: retiradas e financiamentos
Retirada dos sócios sem valor fixo e parcela de empréstimo antigo são as duas saídas que mais confundem. Elas não são despesa da operação, mas saem da mesma conta.
Aqui a lei ajuda a organizar. Pró-labore é a remuneração do sócio que trabalha, e sobre ele a empresa recolhe 20% de contribuição patronal (Lei 8.212/1991, art. 22, III). Distribuição de lucros é outra coisa: no Simples ela é isenta de imposto de renda (LC 123/2006, art. 14), mas sem escrituração contábil a isenção fica limitada ao percentual de presunção sobre a receita, menos o Simples pago; com escrituração que mostre lucro maior, distribui-se o lucro contábil. Retirada "quando dá" não é nem uma coisa nem outra, e é ela que some do controle.
Por que o saldo do banco engana
Porque ele mistura tudo isso num número só, e ainda soma dinheiro que já tem dono: o imposto do mês passado, o fornecedor que vence semana que vem, o 13º de dezembro. Um saldo de R$ 50 mil pode significar R$ 8 mil livres. Ou dívida.
| Saída | Onde aparece | O que mostra |
|---|---|---|
| Imposto | DAS do mês seguinte | Quanto de cada venda foi para o tributo, pela alíquota efetiva do mês |
| Taxa de cartão e antecipação | Relatório da operadora, não no extrato | O custo de vender parcelado e de antecipar |
| Custo do que foi vendido | Notas de compra e controle de estoque | A margem bruta real, não a estimada |
| Folha e encargos | Folha, guias e provisão de 13º e férias | O custo total da equipe, todo mês |
| Retiradas e financiamentos | Extrato, pró-labore e parcelas | O que saiu para os sócios e para o banco, separado da operação |
O que resolve
Dois controles, mantidos todo mês:
- Fluxo de caixa projetado: os compromissos dos próximos 60 a 90 dias ao lado do que vai entrar. É ele que avisa antes de faltar.
- DRE gerencial: receita, custo, despesa e resultado do mês, com as cinco saídas acima separadas e nomeadas. É ele que mostra a margem. A espinha é a da Lei 6.404/1976, art. 187 (receita bruta, deduções e impostos, custo, lucro bruto, despesas, resultado); a abertura por linha é o que o torna gerencial.
Quando os dois existem, a pergunta "para onde foi o dinheiro" tem resposta em cinco linhas. E a decisão seguinte, seja reajustar preço, renegociar taxa ou fixar a retirada, passa a ser feita com número.
- ✓Venda bruta registrada antes do desconto do cartão, com a taxa em linha própria.
- ✓Imposto do mês provisionado no dia da venda, não no dia da guia.
- ✓Custo da mercadoria vendida conferido com o estoque, não estimado.
- ✓Provisão mensal de 13º e férias.
- ✓Pró-labore fixo, distribuição de lucros com lastro contábil e parcelas de empréstimo fora da operação.
Se a sua empresa fatura bem e a pergunta continua sem resposta, é exatamente isso que a gestão financeira resolve. Para entender a margem por trás disso, leia faturamento não é lucro; e para decidir se a rotina deve sair da sua mesa, vale a pena terceirizar o financeiro?.
Base legal
- LC 123/2006, art. 18, §1º-A, na redação da LC 155/2016: alíquota efetiva do Simples Nacional calculada sobre a receita bruta dos doze meses anteriores.
- LC 123/2006, art. 14, caput e §§1º e 2º: isenção dos lucros distribuídos, limite sem escrituração e distribuição do lucro contábil com escrituração.
- Lei 8.212/1991, art. 22, III: contribuição patronal de 20% sobre a remuneração do contribuinte individual, inclusive pró-labore.
- Lei 6.404/1976, art. 187: estrutura da demonstração do resultado.
Conferido em 21/09/2026 no texto oficial.
Perguntas frequentes
Por que minha empresa fatura bem e não sobra dinheiro?
Porque entre a venda e o saldo existem cinco saídas que o extrato não nomeia: imposto que chega no mês seguinte, taxa de cartão e antecipação, custo da mercadoria vendida, encargos da folha e retiradas com financiamentos. Sem medir cada uma, o lucro some sem aviso.
Qual a diferença entre lucro e fluxo de caixa?
Lucro é o resultado do mês: receita menos custo, despesa e imposto, mesmo que parte ainda não tenha sido paga ou recebida. Fluxo de caixa é o movimento do dinheiro no tempo. Uma empresa pode ter lucro e faltar caixa (vende a prazo, paga à vista) ou ter caixa e estar no prejuízo (o saldo é dinheiro de terceiros).
Quais são as causas mais comuns de falta de caixa?
Preço formado sem conhecer o custo real, imposto e 13º sem provisão, taxa de cartão e antecipação tratadas como se não existissem, e retirada dos sócios sem valor fixo. Quase sempre são várias ao mesmo tempo, e o fluxo de caixa projetado é o que mostra qual pesa mais.
Como separar finanças pessoais e da empresa?
Conta bancária separada, pró-labore fixo para o sócio que trabalha e distribuição de lucros só com lastro contábil (LC 123/2006, art. 14). Despesa pessoal não passa pela conta da empresa, e a retirada tem data e valor definidos antes do mês começar.
Qual a diferença entre pró-labore e distribuição de lucros?
Pró-labore remunera o trabalho do sócio e tem contribuição previdenciária: 20% patronal pela empresa (Lei 8.212/1991, art. 22, III), além da parte do próprio sócio. Distribuição de lucros remunera o capital, é isenta de imposto de renda no Simples (LC 123/2006, art. 14) e depende de lucro apurado.
Como fazer o fluxo de caixa de uma pequena empresa?
Liste os compromissos dos próximos 60 a 90 dias, com data e valor, ao lado do que vai entrar e quando. Atualize toda semana com o caixa conciliado. O objetivo é saber, hoje, se vai faltar dinheiro no dia 20 e quanto. A planilha bonita vem depois.
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